Redes sociais e saúde mental: como a internet pode ajudar a desenvolver depressão e ansiedade

Quando você acessa alguma das suas redes sociais, tem a sensação de que todos estão muito mais felizes do que você? A impressão, muitas vezes, é a de que as fotos e os vídeos postados refletem uma vida perfeita, quase inatingível, em que as pessoas ali estão sempre bem consigo mesmas e se sentindo realizadas com o que fazem.

O problema é quando esse tipo de imagem acaba servindo de gatilho para quem está do outro lado da tela do celular, apenas observando essas “vidas perfeitas”. A pressão para conquistar esse estilo de vida é grande e a positividade que envolve as redes sociais pode se mostrar muito mais tóxica do que benéfica ou inspiradora. 


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Para a psicóloga Luisa Bauke, essas postagens podem provocar sentimentos de inadequação em algumas pessoas, fazendo com que pensem que não fazem parte do padrão ou que são incapazes de alcançar coisas boas na vida. “Por mais que saibamos que a vida mostrada nas redes sociais não retrata 100% da vida real, muita gente cai nessa armadilha, principalmente quando a autoestima está abalada”, explica a psicóloga. 

Segundo Luisa, perceber que todos ao redor vivem uma felicidade plena pode impactar ainda mais na vulnerabilidade de um indivíduo, caso não consiga se adequar a esse padrão. Ele pode se tornar cada vez mais infeliz, acreditando não saber o que fazer para que coisas boas também lhe aconteçam. “A sensação é a de que tudo dá certo para o mundo, menos para ele”, pontua.

A tirania das redes sociais

É impossível se sentir feliz o tempo todo, assim como também é impossível experienciar apenas situações prazerosas ao longo da vida. Apesar disso, momentos ruins não são admirados ou valorizados nas redes sociais. É quase proibido falar sobre isso. “Vivemos uma época em que não é permitido não estar 100%”, comenta Luisa. 

Para a psicóloga, existe uma tirania na internet impedindo que as pessoas se mostrem tais como são. Mesmo que a exposição pessoal on-line seja cada vez maior, ninguém quer ser considerado triste ou aquém dos padrões vigentes de felicidade. Se uma pessoa decide falar sobre seus problemas, pode ser julgada como alguém que almeja atenção ou que deseja apenas se fazer de vítima.

Esse tipo de postura pode acabar afetando sua capacidade de ser verdadeiramente feliz. “Quando nos obrigamos a seguir um padrão, aquilo que realmente sentimos e gostamos tem que ser armazenado em algum lugar. Passamos a usar uma máscara, que nem sempre reflete a nossa essência. Ter que fazer isso com frequência é desgastante e frustrante”, afirma a psicóloga. “As expectativas e os padrões sociais sempre existiram, mas com as redes sociais tudo isso ficou muito mais visível e imediato”.

redes sociais

Crédito: 13_Phunkod/shutterstock

Buscar o constante reconhecimento nas redes sociais e mostrar uma felicidade que não existe pode acabar suplantando as ocasiões verdadeiramente felizes. As pessoas não vivem com atenção plena e não se atentam ao momento. Por causa disso, podem assumir um risco maior de desenvolver transtornos, como ansiedade.

“Por exemplo, em uma viagem é comum observar pessoas tirando inúmeras fotos para postar, mas será que elas estão realmente vendo a paisagem, o pôr do sol ou o museu?”, questiona Luisa. “Será que elas estão armazenando as sensações dessas experiências?”.

Frustração dentro e fora das redes sociais

Tamara Rigoni, psicóloga e sócia proprietária da Cromo Clínica de Terapias, concorda que as redes sociais podem exercer uma influência negativa nas pessoas. “Acredito que existe uma supervalorização do poder da positividade nas redes sociais, que, como consequência, geram problemas psicológicos”, comenta.

Para ela, existem dois lados que exercem essa tirania: as pessoas que postam o conteúdo e aquelas que tentam reproduzi-lo. O primeiro grupo é o das pessoas que mostram apenas as qualidades e as coisas boas da vida, gerando uma falsa ideia de perfeição. O segundo é o das pessoas que tentam reproduzir mais do mesmo. De acordo com Tamara, elas acabam desenvolvendo uma intensa autocobrança e muita frustração fora das redes sociais.

Por isso, é preciso tomar muito cuidado com as comparações, que são bem comuns na internet. “Quando se cria uma ideia fantasiosa sobre a vida de outra pessoa, sem enxergar o outro lado, o sentimento de inferioridade se instala e é uma porta aberta para os transtornos depressivos e ansiosos”, adverte Tamara. 

No entanto, é importante ressaltar que o uso das redes sociais em si não causa depressão ou ansiedade, que normalmente são desenvolvidas graças a uma série de fatores. Para a psicóloga, o uso dessas mídias não deve ser considerado como único fator de risco; é preciso entender todo o contexto da vida de uma pessoa, assim como seu funcionamento psíquico.

Ou seja, a internet pode servir como um gatilho em indivíduos com predisposição à depressão ou à ansiedade, mas não é a única responsável pelo surgimento desses transtornos.

É possível estar bem mesmo não se sentindo feliz o tempo todo

Nós temos seis emoções básicas para lidar com todos os momentos de nossas vidas, sejam eles tranquilos ou difíceis: alegria, amor, raiva, tristeza, medo e nojo. De acordo com Tamara, cada uma delas tem um papel fundamental. 

“A alegria tem a função de criar laços; o amor faz a manutenção deles; a tristeza traz o poder de reflexão, a raiva traz a assertividade; o medo preserva a vida; e o nojo, como o mais primitivo deles, existe para que não corramos risco de envenenamento”, explica.

Dessa forma, não é possível estar feliz o tempo todo. Todas essas emoções são necessárias para que os indivíduos se sintam capazes de enfrentar as implicações do dia a dia, sejam elas boas ou ruins. “É extremamente saudável se sentir feliz e triste no mesmo dia, e isso não quer dizer que essa pessoa não esteja bem”, aponta a psicóloga.

Como manter a saúde mental nas redes sociais?

Como a maioria das pessoas usa as redes sociais para comunicação e trabalho, Tamara não sugere que o acesso a elas seja proibido, mas apenas dosado. Ela também indica analisar bem o objetivo por trás do seu uso.

“Além disso, para manter a saúde mental, é necessário acreditar no fato de que todos passam por problemas e todos têm defeitos e dias ruins”, afirma. “A dica principal é procurar ajuda psicológica quando sentir que não consegue lidar com seus problemas”.

Luisa acrescenta que é muito importante que as pessoas desenvolvam o autoconhecimento, pois isso leva ao aumento da autoestima e do foco em objetivos e realizações que façam sentido a elas. “Com esse fortalecimento emocional, ver a vida dos outros não vai causar essa sensação de fracasso”, garante. 

Assim, os padrões estabelecidos não serão mais vistos como sinais de felicidade. “Afinal, ter varanda gourmet, gostar de cafés especiais, conhecer vinhos, ir a restaurantes incríveis, fazer viagens internacionais, ser magro ou vegano não deveriam ser medidas de felicidade, mas apenas escolhas pessoais”, finaliza Luisa.

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